Quando falamos de Spencer Lewis é comum o associarmos a apenas uma organização de caráter Rosacruz. Acredito que isso se deva ao fato dele ter tido um papel importante na transmissão de uma linhagem Rosacruz, fundando a sua própria escola de mistério, como era na tradição antiga, onde cada mestre desenvolvia seu próprio método, interpretando a tradição esotérica e ajustando-a para sua época. Porém, entendo que é um pouco mais que isso, pois ele inaugurou a linha moderna do pensamento Rosacruz místico, que está associado a pelo menos quatro organizações que nascem de um único tronco. Isso é mais comum do que parece, pois há vários mestres relevantes dentro do movimento Rosacruz moderno, cada um estando associado à sua vertente, muitas vezes sendo seu fundador. É importante ressaltar que movimento Rosacruz moderno se organiza em, pelo menos, seis linhas principais, a saber: Hermética, Cabalística, Thelemita, Gnóstica, Mística e Teosófica; compondo, pelo menos, vinte e uma ordens de caráter Rosacruz modernas, das quais é possível encontrar documentos objetivos indicativos de suas existências desde o ano 1800. Isso não significa que não haja registros anteriores, apenas que eles se referem a períodos anteriores ao que considero moderno. A parte da tradição que resultou na vertente mística veio sendo transmitida, muito provavelmente, desde a Gold und Rosenkreuzer, ou Rosacruz de Ouro, último ciclo Rosacruz no século XVIII, por “fiéis depositários”, incluindo algumas dessas vinte e uma organizações, sendo algumas delas de caráter Maçônico. Essa transmissão chega até o mestre Lewis por volta de 1909. Aqui cabe um esclarecimento, pois é importante entender o que significa caráter Maçônico, uma vez que isso pode confundir as pessoas. É comum que se acredite que só exista uma Maçonaria, mas não é assim que o movimento Maçônico se organiza. Ele não é subordinado a uma única hierarquia no plano físico, é um complexo de ordens, potências ou federações, acordos de reconhecimento, dissidências, vertentes e etc. Aliás, com exceção dos tratados de reconhecimento, o movimento Rosacruz é muito parecido quanto a isso, certamente por conta de raízes comuns lá na Insigne Ordem do Tosão de Ouro no século XV. Nesse sentido, há organizações de caráter Rosacruz dais quais somente Maçons podem participar (como disse, é complexo), mesmo que esse não seja o caso da escola do mestre Lewis, que também era Maçom da vertente egípcia, potência independente não vinculada à Inglaterra. Outro esclarecimento é que estou usando o termo movimento para ficar independente de qualquer escola em particular, ou seja, uso o termo para identificar o conjunto de organizações que se alinham a uma determinada linha de pensamento geral. Então, o movimento Rosacruz se refere a todas as ordens de caráter Rosacruz, o Maçônico das de caráter Maçônico e assim por diante.
A questão de cada escola estar meio que visceralmente vinculada a seu mestre é mais comum do que a instituição existir por muito tempo sem o mestre, pelo menos no passado. As exceções são algumas ordens do movimento Maçônico, que se desenvolveram como associações de esoteristas eruditos que costumeiramente seguiam linhas de estudo específicas e tinham uma estrutura sucessória melhor adaptada à civilização ocidental. Mesmo as congregações de mestres, como a Academia Platônica de Florença, ou as ordens secretas que objetivavam proteger seus membros das perseguições, costumavam ter duração mais ou menos similar a vida do grupo de personalidades relevantes para aquela organização, ou seja, seus mestres ou seus nobres patrocinadores. A escola do mestre é uma prática comum no oriente ainda hoje e quando o mestre se vai, a escola não costuma sobreviver, mas seus discípulos fundam sua própria escola (nas artes marciais isso é bem comum), seguindo a linhagem do mestre fundador, mas determinando um estilo e método próprios. De fato, a ênfase na instituição como referência se tornou uma prática mais comum no ocidente do século XX e, honestamente, ainda é cedo para saber se esse modelo vai sobreviver, até porque, o universo é hierárquico e não institucional, portando, estaria esse modelo de acordo com as leis naturais? Não tenho essa resposta, mas o tempo tem e ele vai nos dizer no futuro. De qualquer forma, na tradição original, o modelo é o mestre como elo de uma corrente de linhagem, sendo que nenhuma instituição pode ser maior do que seu mestre e sua linhagem. Muitas vezes, essa linhagem deixa a organização e segue seu próprio caminho, dentro dos ciclos claramente explicados por Spencer Lewis, demonstrados pela história do próprio movimento Rosacruz e mais claramente encontrados nos movimentos espiritualistas orientais e nas escolas de filosofia gregas.
Na minha opinião, como sugeri acima, o mestre Lewis foi maior que sua escola, sendo hoje uma referência para, pelo menos, quatro escolas de mistério, além de ter relevância em, pelo menos, outras três, duas delas apenas como participante e colaborador. E esse aspecto tem tudo a ver com alguns dos princípios que aponto mais abaixo. Não é muito divulgado, mas ele tinha altos graus em, pelo menos, três ordens, sendo que não estou incluindo aqui o movimento Martinista e nem as ordens ocultas formadas só por mestres ou hierarquias secretas. Se contarmos estas, aí a quantidade de títulos seria razoavelmente maior. Como vocês podem ver, estou sendo genérico e evitando citar nomes específicos, pois hoje em dia o patrulhamento de opiniões e referências têm nos exposto a censuras injustificáveis, mas uma pesquisa mais ou menos simples nas IA e outros meios digitais trará mais informações para quem quiser saber os detalhes. As IA, mesmo com seus filtros e vieses ideológicos, ainda são repositórios de livros e documentos públicos e, nesse particular, estão menos sujeitas às intervenções das instituições que querem manter o controle das narrativas históricas. Pelo menos, ainda é assim na data em que estou escrevendo isto, mas pode mudar rapidamente.
Assim como eu entendo que o mestre é maior que sua escola, as escolas dependem de seus membros e um membro só pode ser reconhecido como estudante por outros membros. Nesse sentido, as escolas também não podem ser maiores que seus membros, dado que são eles que apontam sua existência. Isso está bem de acordo com a lei natural. Permita-me um exemplo simplório: muitas vezes se identifica a existência de um planeta ou orbe através da interferência gravitacional que ele causa em outro orbe. Sem essa interferência, não há elementos para apontar sua existência. Em função disso, mesmo que eu faça parte de organizações e respeite suas diretrizes, eu opto sempre por seguir as referências dos mestres. Isso é um princípio particular da minha psique e não uma crítica ou queixa. Só constato que, baseado em inúmeros exemplos na história, é comum as organizações desviarem-se do mestre conforme o tempo vai passando, portanto, por melhores que sejam as intenções, entendo que só o mestre é o porto seguro. Nesse sentido, Harvey Spencer Lewis é um dos mais importantes, senão o principal, para minha formação nesta encarnação. Estudo a vida dele, estudo seus escritos, estudo tudo que é possível encontrar, mesmo aqueles textos que, por vezes, não sejam mais editados e tenham se perdido nos sebos, por qualquer que seja o motivo. Minha formação filosófica é baseada nos muitos princípios expressos de alguma forma pelo mestre Lewis, mesmo que eu os expanda e interprete, até por sugestão dele próprio. Então, como não há uma declaração de princípios vinda diretamente dele em relação aos seus ensinamentos, eu tomei a liberdade, essa liberdade que ele mesmo nos exortava, de estabelecer o que eu considero basilar em relação aos seus ensinamentos. Por esse artigo ser público, logicamente não posso retirar nenhum desses princípios de materiais reservados aos membros dessas escolas, mas sim de livros e documentos considerados públicos. Além disso, preferi colocar as referências com os títulos originais em inglês, mesmo que tenham traduções para o português.
São eles:
1. Liberdade de Pensamento
O Rosacruz deve cultivar independência mental, questionando dogmas e buscando a verdade por meio da razão e da intuição.
• Referência: Rosicrucian Talks and Essays, onde o mestre Lewis afirma que “o iniciado não deve aceitar nada sem reflexão própria”. Para mim, isso é muito claro, nada significa nada mesmo, independentemente de vir até mesmo dele, quanto mais de interpretações que fazem dele. Ser um místico significa ter autonomia e ser treinado para pensar, filosofar, analisar, conciliar, criticar, complementar e formular ideias, mesmo que isso seja combatido e considerado inadequado especialmente pelas estruturas de poder. Aliás, isso não é mérito dele, é o mote de diversos mestres. O fato é que quem pensa, incomoda, especialmente se seu pensamento diverge de algum interesse de poder e possa representar que o pensador não aceita cabresto, mas sim a razão e sua intuição.
2. Liberdade de Culto
Para o mestre Lewis, o movimento Rosacruz como um todo não é uma religião e nem seita, mas respeita todas as crenças. O Rosacruz pode seguir qualquer fé ou nenhuma, mantendo sua espiritualidade livre (aqui é importante ressaltar que existem organizações no movimento Rosacruz que tem um caráter muito mais religioso e litúrgico, porém, essa não era a visão dele).
• Referência: Self Mastery and Fate with the Cycles of Life, onde o mestre Lewis destaca a universalidade do rosacrucianismo e o respeito às tradições religiosas. Na minha opinião particular, o que talvez exista, por uma questão de coerência filosófica, seja acreditar em algo que possa ser referido como Deus, mas isso independe de qual seja sua concepção, podendo até mesmo ser um agnosticismo teísta (que é meu caso). Lembrando que o agnosticismo pode ser tanto teísta quanto ateísta, porém, este último teria conflitos essenciais para acomodar os ensinamentos do mestre Lewis. Entretanto, eu pessoalmente não considero isso um impeditivo para uma mente aberta.
3. Liberdade de Estudo
O buscador é incentivado a estudar além dos ensinamentos Rosacruzes, explorando filosofia, ciência, artes e outras tradições espirituais, para expandir e confrontar ideias.
• Referência: Em Mansions of the Soul, ao tratar da evolução da alma, o mestre Lewis recorre a comparações com tradições filosóficas e religiosas, mostrando que o estudo não é exclusivo de nenhuma organização, mas parte de uma busca universal. Além disso, nos Rosicrucian Talks and Essays, ele deixa claro que o Rosacruz deve manter a mente aberta e estudar inclusive outras tradições, organizando e avaliando tudo através da experiência pessoal.
4. Experimentação de Princípios
Os ensinamentos devem ser vividos e testados na prática, não sendo aceitos apenas teoricamente. A experiência pessoal é a validação dos conceitos envolvidos nos ensinamentos.
• Referência: Rosicrucian Talks and Essays; aqui, ele reforça que o Rosacruz deve experimentar e não apenas acreditar, pois o rosacrucianismo não oferece verdades prontas e nem fé cega, mas sim métodos que sugiram caminhos para que cada um descubra por si mesmo.
5. Despertar da Consciência Interior
O objetivo é despertar o Eu Interior, manifestando intuição, percepção espiritual e faculdades psíquicas e parapsíquicas de forma gradual, permitindo que o Eu Interior se manifeste na vida cotidiana, como expressão da alma através da experiência humana.
• Referência: Mansions of the Soul e The Secret Doctrines of Jesus, onde ele descreve o desenvolvimento psíquico como consequência da evolução espiritual e a revelação interior como núcleos dos processos iniciáticos. E penso que na visão dele, o treino parapsíquico era um recurso importante para esse despertar, ampliando os meios para a manifestação do Eu Interior.
6. Serviço à Humanidade
O Rosacruz busca não apenas seu progresso, mas também contribuir para o bem coletivo, promovendo fraternidade universal e auxílio ao próximo.
• Referência: Rosicrucian Talks and Essays, onde ele fala da missão de servir à humanidade como parte da evolução espiritual. Aqui é importante notar que o movimento Rosacruz tem raízes importantes nos movimentos humanistas do renascimento e iluminismo, portanto, mesmo que servir à humanidade faça parte de ensinamentos de vários mestres antigos, ela também foi inserida no humanismo.
7. Integração entre Ciência, Filosofia e Misticismo
O rosacrucianismo une razão e espiritualidade, mostrando que ciência, filosofia e misticismo são caminhos complementares para compreender a vida e o cosmos.
• Referência: Em Rosicrucian Talks and Essays, ele fala que cada uma dessas áreas isolada é incompleta, mas juntas oferecem uma visão integral da vida e do cosmos, e em Self Mastery and Fate with the Cycles of Life, ele indica como o Rosacruz deve integrar fenômenos naturais, princípios éticos e mistérios espirituais. Ele via o misticismo como um contato com o transcendente, sempre o distinguindo de práticas supersticiosas, reconhecendo a ciência como método válido de investigação da realidade. Posso inferir aqui que, para ele, toda prática deveria ter uma explicação racional válida e um objetivo claro, senão, poderia cair na armadilha da superstição.
8. Harmonia com as Leis Naturais e os Ciclos
O Rosacruz deve viver em sintonia com as leis da natureza e do universo, cultivando saúde, equilíbrio e respeito ao meio ambiente e às leis cósmicas.
• Referência: Self Mastery and Fate with the Cycles of Life, que enfatiza a importância de alinhar-se às leis naturais e aos ciclos da vida, alertando sobre os desequilíbrios que podem resultar por negligenciar esse princípio. Eu enxergo uma associação entre o respeito às leis cósmicas e a cosmoética, mesmo que esse termo não existisse na época do mestre Lewis, porém, ele é muito condizente com a ideia de harmonia com a natureza. Assim como a ética se mede pelo que você faz quando ninguém está olhando, a cosmoética é como você respeita a ordem cósmica quando ninguém está olhando. Eu acho que um bom exemplo para explicar a falta de alinhamento à ordem cósmica é não usar os pés para caminhar quando você pode fazer isso, por exemplo, andar de ponta-cabeça com as mãos não se alinha ao propósito das mãos e dos pés, mesmo que você possa fazer isso como alguma demonstração de destreza, ou qualquer outro motivo. A questão é que as mãos não foram criadas para andar, uma vez que o corpo tem os pés para isso. Ou seja, as coisas e os ciclos no cosmos são manifestos de acordo com alguma lei ou condição universal e devem ser respeitados em seus propósitos, como as partes do corpo que mencionei acima, e uma prática que não respeite isso por qualquer motivo que seja não é cosmoética, mesmo que possa parecer ética.
9. Busca pela Paz Interior e Universal
O mestre Lewis frequentemente enfatiza que o trabalho Rosacruz não é apenas intelectual ou espiritual, mas também ético e social: o Rosacruz deve cultivar a paz interior e contribuir para a paz no mundo.
• Referência: Rosicrucian Talks and Essays, onde, em vários discursos, ele associa o progresso espiritual ao compromisso com a paz e a fraternidade universal; em The Secret Doctrines of Jesus ele interpreta os ensinamentos crísticos como um chamado à paz interior e à fraternidade entre os homens; em Self Mastery and Fate with the Cycles of Life, ele explica que o verdadeiro domínio da vida só é possível quando o estudante alcança harmonia interior e descreve essa harmonia como um estado de paz profunda, que transcende circunstâncias externas; em Mansions of the Soul, ele afirma que cada etapa da jornada espiritual aproxima o buscador de um estado de serenidade cósmica e identifica esse estado como a paz profunda que acompanha o progresso da alma.
Seria Spencer Lewis o mestre dos mestres do movimento Rosacruz? Certamente que não, ele é o mestre mais recente que teria fundado uma das vertentes mais recentes. Ele teria sido iniciado por Emile Dantinne, que fazia parte da vertente Rosacruz cabalística do movimento Rosacruz e também fundou sua própria escola, sucessora da linhagem de Joséphin Péladan, também Rosacruz cabalista, que, conforme expliquei acima, faziam parte dos elos de transmissão da linhagem de Spencer Lewis desde o último ciclo Rosacruz. Veja que isso é uma forma bem simplificada de falar sobre a transmissão da linhagem, pois eu citei poucos nomes nesse caminho, há muitos outros. O fato é que havia uma profusão de ordens no século XVIII e XIX que tiveram influência de alguma forma no movimento, uma vez que muitos grandes nomes do esoterismo participavam de várias delas, e nem falo aqui das ordens internas de mestres e hierarquias secretas. É possível voltar mais, onde encontraríamos a Academia Platônica de Florença e a Insigne Ordem do Tosão de Ouro, donde conseguiríamos remontar aos Templários, mesmo havendo um hiato de cerca de 100 anos entre o desmonte dos Templários e a fundação da Tosão de Ouro, ou seja, um ciclo de inatividade, absolutamente em conformidade com os ensinamentos de Lewis. Há suporte nessa tese por historiadores que encontraram um fio da meada através da biografia de grandes esoteristas, muito embora, temos que entender que essa “genealogia” é só uma versão do que realmente pode ter acontecido, pois como as ordens eram secretas no passado, segredo significa que as informações históricas são complexas de serem garimpadas e exigem interpretações, sendo difícil ser definitivo aqui, pois até mesmo as biografias têm elementos especulativos. Outro ponto interessante é que, dentro desses estudos, quem sempre parece estar de alguma forma transportando os documentos, ensinamentos e tradições ocidentais é o movimento Maçônico, e eu penso que isso tem um significado exotérico por conta da natureza e objetivos desse movimento. Sem contar que todas as ordens, desde a Academia Platônica de Florença, se misturaram através de seus membros comuns. É como se algumas ordens fossem círculos internos de outras, ou linhas de pensamentos particulares baseadas em seus mestres, que como disse acima, participavam de várias ordens, similarmente a Spencer Lewis, entre ordens tidas como Maçônicas, Cabalísticas, Cristãs, Judaicas, Alquímicas, Rosacruzes, Reformistas, e mais.
Como elo de uma linhagem, um dos méritos do mestre Lewis é que ele está próximo a nós, fala uma linguagem que ainda conseguimos entender, se mostra como uma pessoa como nós, passível de vicissitudes, opiniões e limitações, indicando um caminho que conseguimos enxergar e trilhar. Não que os mestres do passado não sejam igualmente importantes, até mais, mas ter um mestre mais próximo nos permite elaborarmos os processos com mais compreensão. Nos permite interpretar e expandir, continuando o caminho e abrindo espaço para o próximo mestre que passará por aqui no próximo ciclo, nossa próxima etapa de elevação da consciência, guiado pelos mestres fundadores das escolas de mistério.